Em outubro, comemora-se o centenário de nascimento de Fernando Pierucetti, criador do galo e da raposa como mascotes do futebol. Artista plástico, ele é um dos pioneiros do modernismo
Este é um artista cuja obra todo o Brasil conhece: Fernando Pierucetti (1910-2004). Veio dele, que adotava o pseudônimo de Mangabeira, a ideia de fazer do galo o símbolo do Atlético, e da raposa e do coelho, respectivamente, mascotes do Cruzeiro e do América. "Toda vez que soltam foguete depois de um jogo de futebol de clube mineiro, um desenho meu está sendo comemorado", gostava de dizer. Em 10 de outubro, será comemorado o centenário de nascimento de Mangabeira.
Diz a lenda que Fernando Pierucetti, torcedor do América, chorava ao ouvir a torcida atleticana gritando "galoooô". Os bichos surgiram da vontade de ensinar ao torcedor que é preciso haver cordialidade entre os clubes. Ironia e gozação, sim; ofensa não. Os mascotes foram lançados pelo Estado de Minas, em 1947, como personagens de tirinhas semanais, por sugestão de Álvares Silva, colega de redação. A norma, na época, era publicar os estrangeiros Pato Donald e Popeye, entre outros.
"Não queria plágio. Defendi que fossem bichos nossos", explicou Pierucetti em entrevista a este jornal, em 1997. A primeira leva trazia tigre (mascote do Sete de Setembro), tucano (Metalusina), leão (Villa Nova), tartaruga (Siderúrgica). Mais tarde entraram em campo o zebu (Uberaba), o tatu (Meridional), o jacaré (Democrata), o periquito (Bela Vista) e o urubu (Renascença). O zoológico chegou até outros personagens importantes do futebol: o rato, representando os juízes; a águia, a federação mineira; a coruja, o Tribunal Desportivo. Espírito de porco e jaburu simbolizavam as reações da torcida.
O ícone do Atlético surgiu da associação das cores do clube (preto e branco) com o galo carijó, bicho que remetia à valentia e à garra. Era o personagem favorito do artista. "Álvares Silva me disse: é definitivo, mas continuou insistindo no Pato Donald como símbolo do América, devido ao fato de ser time espalhafatoso, que falava muito e perdia sempre", contou o artista. Durante algum tempo, o pato reinou. Até que, numa tira, fez haraquiri diante do coelho, que tomou o seu lugar. Foi escolhido porque fazia alusão a um clube com muitos funcionários com o sobrenome Coelho.
A escolha da raposa cruzeirense remetia à astúcia e à malícia de Mário Grosso, presidente do clube na época. "Apareceu um jogador notável do interior. Enquanto o Atlético ficava no contrata, não contrata, ele saiu na frente e contratou o jogador", revelou Mangabeira. Veio dele outro mascote, hoje aposentado: o canarinho (Seleção Brasileira), referência à troca da camisa azul pela amarela.
O artista pôde acompanhar o enorme sucesso dos bichos que criou. Mas não gostava nada de ver suas criações ganharem outros traços. "São distorcidas, em alguns casos até por amadores", queixava-se Mangabeira.
Cria do jornal
Fernando Pierucetti foi professor, jornalista, desenhista e pintor. Era filho de ourives e de madame Penélope, a primeira modista de Belo Horizonte, então a nova capital de Minas Gerais. Os primeiros trabalhos, ainda criança, eram reproduções de figuras de caubóis e heróis do cinema. Ele estudou com Luiz Teixeira, em Itajubá, onde morou por algum tempo. Surpreendido ao fazer a caricatura de um padre professor, em vez de repreensão recebeu estímulo para continuar.
A partir de 1933, já trabalhava em jornais. Em 1936, participou da mostra Bar Brasil, manifesto dos modernistas na capital mineira, e ganhou o primeiro prêmio com os quadros Miséria e Os jornaleiros. O teor social dessas obras fez com que alguns dissessem que Fernando trouxe os dramas do povo para a arte.
"Gostaríamos que a obra de Fernando Pierucetti não fosse esquecida", afirma Edmundo Pierucetti, de 65 anos, um dos três filhos de Mangabeira. Atleticano, ele vai logo avisando: considera o galo o melhor trabalho do pai. "Esse personagem se destacou, representa bem o time valente e vingador. Também acho apropriada a raposa para o Cruzeiro. É time que tem direção, administração, é astuto até hoje", observa.
Yedda Pierucetti, de 70, a filha mais velha, diz que ele era carinhoso e presente, dedicado à família. Às vezes divertido, mas também bravo - "rígido entre aspas", corrige Edmundo. Ela admira a sensibilidade do pai para a questão social, manifestada em vários desenhos. Isso talvez se deva ao fato de ele ter experimentado, ainda criança, mudança brusca de condição social, pois a mãe ficou viúva e teve de cuidar de seis filhos. Trocou o palacete pelo patronato (colégio para meninos carentes), como o artista gostava de dizer. Yeda diz que o mais importante, no momento, é a pesquisa e a catalogação da obra extensa e variada do pai, que se encontra dispersa.
Geração histórica
Ivone Luzia, pesquisadora do modernismo em Minas Gerais, diz que Fernando Pierucetti cresceu artística e politicamente ao trabalhar na imprensa acompanhando jornalistas para fazer desenhos (fotos eram raras) para reportagens as mais diversas - de comícios a tragédias do cotidiano. O que era traço forte, mas menos rebuscado, se somou à observação do social e se tornou expressionismo.
Os mascotes dos clubes representaram o momento da busca de algo que chegasse ao povo, com força e graça. "São desenhos fortes, bonitos, pitorescos, de grande comunicação e pacíficos. Não são agressivos", ressalta. A especialista considera possível ver algum nacionalismo na escolha de animais brasileiros. "Na época, pode até existir algo na mesma direção do que Pierucetti fez. Mas nada com a formalização que ele dá à ideia, criando uma alegoria do futebol", defende.
Fernando Pierucetti integrou geração histórica das artes plásticas mineiras, formada por Érico de Paula, Delphino Júnior, Genesco Murta, Renato Augusto de Lima e Jeanne Milde, entre outros. São artistas que pela primeira vez usam a expressão arte moderna para falar de seus trabalhos. "Esse grupo provocou jornais, academias, artistas e o público a ver, conhecer e discutir a arte moderna. Assim, eles deram rumo à produção de Belo Horizonte", conclui.