Título Considerado um dos mais importantes do país, artista plástico morre ao 84 anos, em Goiânia
Matéria Nahima Maciel Publicação: 09/06/2010 08:23 O mundo criado por Antônio Poteiro não existia. Era um mundo de fantasia no qual qualquer coisa podia acontecer, até uma nave espacial trazer os portugueses que colonizavam o Brasil. Por isso será muito difícil navegar por tais universos de agora em diante. Nascido em Portugal, há 84 anos, e radicado em Goiânia, o artista morreu na madrugada de ontem em decorrência de uma infecção generalizada que provocou parada cardíaca. Poteiro, 84 anos, estava internado há uma semana no Hospital e Maternidade Jardim América, na capital goiana, e o enterro aconteceu na noite de ontem no Cemitério Jardim das Palmeiras. A pintura do artista está entre as mais importantes do país quando se trata do estilo conhecido como arte naïf. Poteiro se diferenciou em uma massa que agrega centenas de nomes e muitas controvérsias. Artistas naïfs estão longe do universo acadêmico e têm algo de espontâneo na produção, mas também são difíceis de classificar e qualificar. Hoje, são tênues as fronteiras entre a autenticidade da pintura espontânea e o maneirismo que traz o conhecimento da técnica e a imitação. Ele, no entanto, conquistou lugar de honra. Ao contrário de muitos de seus colegas, não tentava reproduzir o real. Inventava seus personagens e narrativas, por isso ganhou destaque e reconhecimento. Para comemorar os 500 anos do descobrimento, inventou uma história na qual portugueses chegam ao Brasil em naves espaciais. Da própria imaginação tirava personagens como a Rainha das Tartarugas e o Rei do Pão. "Normalmente os naïfs olham para paisagens e cenas. Ele criava as próprias imagens. Não olhava uma paisagem para pintar depois. Isso não é comum", aponta o galerista Celso Albano, responsável por realizar a última exposição do artista em Brasília, há dois anos. Produção Poteiro era um trabalhador incansável. Sua produção intensa chegou a ser criticada no mercado. O excesso de quadros desvalorizava as obras. Celso Albano costuma apontar a produção antiga como o que há de melhor na obra de Poteiro. Especializado em quadros anteriores aos anos 1980, ele defende que os quadros mais recentes já não possuíam o vigor pictórico da pintura antiga. "Com muita idade ele já não enxergava muito bem", explica. Foram os também artistas Siron Franco e Cléber Gouveia os responsáveis por apresentar Poteiro às tintas, telas e pincéis. Até os anos 1970, o artista era um oleiro empenhado em criar peças de artesanato, como cerâmicas utilitárias ou decorativas. Em 1972, Siron comprou tintas e pincéis, ofereceu o kit ao artista e o incentivou a produzir. Professor da Universidade de Brasília (UnB) e colecionador de arte naïf, Augusto Lutgards lembra que Poteiro jamais ganhou um livro. "Artistas menores tiveram livros publicados, mas ele não. Ficamos devendo isso a ele. Muita gente que não sabe o que é arte naïf conhece Poteiro", repara. "Ele teve excelência tanto na pintura quanto na escultura. Pintava tanto temas sacros quanto profanos com a mesma desenvoltura." Para o crítico e historiador Olívio Tavares de Araújo, autor de três textos sobre o artista e do perfil disponível no site oficial, Poteiro era um grande contador de fábulas e um dos três melhores artistas naïfs do país. "Alguns artistas são inconfundíveis e têm originalidade formal", diz. "Todo artista dito primitivo tem uma porção de fórmulas que se repetem e que, às vezes, são truques do ofício. Poteiro era o oposto disso. Jamais pintou nada agradável, pintava coisas fortes." Tavares gosta de dizer que "Poteiro pintava Poteiros", paródia de uma frase que o artista Willys de Castro utilizava para Alfredo Volpi. A comparação que melhor se encaixa para definir o conteúdo da obra do artista é mesmo a com o Pícaro, personagem típico de romances do século 17. "Pícaro era um aventureiro que inventava histórias. E Poteiro inventava histórias e tinha essa veia fabulatória."
Data 09/06/2010