Título Mestre Valentim
História da Arte Leandro Joaquim - "Revista no Largo do Paço". Ost - Segunda metade do século XVIII - 1110 x 1390 mm. Em primeiro plano o chafariz do Mestre Valentim. Acervo do Museu Histórico Nacional - Rio de Janeiro Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, foi o mais importante, o mais completo e mais versátil artista do Rio Colonial. Mesmo assim continua sendo desconhecido da maioria dos brasileiros, inclusive de muitos cariocas que convivem com sua obra no cotidiano da cidade. Nosso artista, cuja vida ainda permanece em mistério, no dizer de seu primeiro biografo Araújo Porto Alegre, era "filho de um fidalgote português contratador de diamantes e de uma crioula natural do Brasil". Valentim esclarece em testamento descoberto recentemente, que seus pais chamavam-se Emanuel da Fonseca e Silva e Matilde da Fonseca, e que eram natural de Serro do Frio. Nascido por volta de 1740, era da terra do ouro, dos diamantes, da Chica da Silva, da religiosidade barroca, aonde multidões de homens chegavam atraídos pela ganância e viviam em constante promiscuidade com escravas e cortesãs, esbanjando com todo tipo de excessos a riqueza que arrancavam do solo. No Rio de Janeiro morava na Rua do Sabão, onde coexistiam ricos sobrados, casas modestas, cartório, igrejas, prostíbulos e transitavam nobres, populares, escrivãos, escravos e religiosos. Também passavam pela velha rua de pé de moleque procissões, vias sacras e prostitutas que se insinuavam sob a luz dos oratórios que iluminavam as esquinas. Estes ambientes cheios de contrastes, ao mesmo tempo místicos e mundanos, iriam influenciar o caráter e a personalidade de Valentim que, ainda segundo Porto Alegre, levado pelo pai, teria iniciado seus estudos em Portugal. Não existe nenhum retrato de Valentim pelo qual se possa reconhecer as suas feições. Esse fato tornou difícil a execução das homenagens que à sua memória foram prestadas por ocasião do centenário de sua morte, em 1º de março de 1913. O pintor Lucílio de Albuquerque fez um interessante trabalho, reconstituindo a figura de Valentim. Desse trabalho se valeu o escultor Joaquim Rodrigues Moreira Junior para executar o meio-busto do artista inaugurado no Passeio Público. Ele esculpiu uma cabeça cheia de inteligência a que procurou dar os necessários traços de mestiçagem. Quando se inaugurou o edifício da Igreja do Parto, para o qual Valentim fez o risco, foram colocados na sacristia, que ocupa a parte posterior da igreja, dois quadros de Leandro Joaquim, que comemoram o incêndio do Recolhimento e do Templo, e a sua pronta reedificação. No segundo quadro figuram, no 1º plano, D. Luiz de Vasconcellos e o artista Valentim, que se inclina respeitosamente ante o vice-rei, apresentando-lhe o projeto da nova igreja (fotos ao lado). As figuras são pequenas, não excedem a um palmo e estão quase imperceptíveis pela ação danificadora do tempo. Por este único retrato, minúsculo, apagado e pelas informações dos historiadores, se fez a reconstituição das feições do mestre Valentim. Em sua casa, modesta, porém própria, Valentim vivia com sua mãe, mantinha encontros amorosos, trabalhava muito e tinha pelo menos um escravo encarregado de serrar e aplainar a madeira. O Mestre realizou imagens e decorações de talha para quase todas as igrejas de seu tempo e todas as obras de urbanismo, paisagismo e embelezamento da cidade durante o vice-reinado de D. Luis de Vasconcelos. Além disso, sua oficina produzia moldes para ourives e prateiros, destacando-se neste trabalho os dois grandes lampadários de prata da Igreja de São Bento, assim como as placas com os bustos dos reis de Portugal para a fabrica de porcelana de João Manco Pereira. Dentre os móveis de luxo que fabricou, basta citar a notável mesa cujo tampo levantava exibindo um rico oratório, confeccionada para o vice-rei seu protetor e amigo. Infelizmente, hoje não se pode dimensionar com exatidão a extensão da obra de Valentim, pelo muito que se perdeu. O Mestre Valentim tinha personalidade semelhante à de outros artistas mestiços de seu tempo, como o escultor Aleijadinho, o pintor Manuel da Costa Ataíde e o músico padre José Maurício. Ciente de sua condição de homem livre, galgou ascensão social por meio de sua arte. Era orgulhoso, um tanto revoltado e mordaz. Sendo solteiro, tinha a sexualidade exacerbada dos mulatos e despendia muito dinheiro com mulheres. Valentim iniciou sua vida na colônia completamente desprovido de recursos. O Brasil ainda não era uma nação, nem tinha existência própria, nem liberdade, nem garantias públicas. Neste meio hostil e indiferente, encetou o filho do falecido fidalgo o seu trabalho, fazendo-se mestre de si mesmo. Levado pela poderosa intuição do talento, foi com facilidade vencendo as dificuldades da sua arte, tentando nacionalizá-la, dando aos seus trabalhos um cunho, um tipo, uma cor local própria, inconfundível. Por outro lado, nosso artista era membro da irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito, mandava rezar missas à N. S. da Piedade e armava um dos Passos da Paixão em frente a sua casa, para a Via Sacra que por ali passava. Era um homem de fé como nos mostra em sua arte.

São João Evangelista - Madeira Entalhada, séculos XVIII / XIX., alt. 1,80m - MHN

Data 12/01/2008
Fonte Jornal A Relíquia março/2007

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