Gelson Radaelli

Ver todas as obras de Gelson Radaelli

Artista Gelson Radaelli
Biografia Gelson Radaelli - BIOGRAFIA COMPLETA NÃO LOCALIZADA

Quando, há três anos, Gelson Radaelli decidiu alugar um apartamento no Centro de Porto Alegre para utilizar como ateliê, ele já havia trabalhado em diversos outros espaços. O primeiro deles foi em Nova Bréscia, cidade do interior do Rio Grande do Sul a 160km de Porto Alegre, onde nasceu e viveu durante a infância. "Quando eu ainda era muito novo, meu padrinho de crisma me deu três telas em branco e alguns tubos de tinta a óleo. Foi uma glória. Então, fiz meu primeiro ateliê no porão da casa dos meus pais, e ali eu pintei mais ou menos dos dez aos 15 anos", lembra.

Mais tarde, quando se mudou para a capital gaúcha para cursar a faculdade de Publicidade e Propaganda, ele passou a compartilhar oficinas com outros artistas. "De certa forma, quando se divide o espaço com outras pessoas, há uma troca que enriquece o trabalho. Mas eu acho que, na presença de outros, tu não te dás essa liberdade de poder errar, errar e errar, até acertar. Tem sempre alguém com um olho no que tu estás fazendo. Por isso, prefiro trabalhar sozinho", reflete.

Seu primeiro espaço individual em Porto Alegre, no entanto, só se tornaria possível dez anos depois. No início da década de 1990, o artista, que sempre gostou de cozinhar, decidiu abrir um restaurante no centro da cidade. No segundo andar do Ateliê das Massas, nome um tanto sugestivo que escolheu para o lugar, ele instalou uma oficina de pintura, onde chegou a organizar algumas exposições.

De modo geral, o negócio foi bem sucedido - tanto é que o restaurante existe até hoje. A presença constante de visitantes no piso superior, porém, não lhe permitia muita privacidade - condição que considera fundamental para a prática artística. Pelo mesmo motivo, percebeu que montar um ateliê em casa não seria uma boa ideia, porque o ambiente teria que ser compartilhado com a mulher e os dois filhos. Assim, concluiu que a única solução seria alugar outro espaço.

Antes de se instalar no apartamento em que trabalha atualmente, Radaelli manteve seu ateliê em outro, perto dali, por mais de dez anos, até que sentiu a necessidade de um lugar mais amplo. "Foi só porque eu queria pintar quadros maiores. Aquele também era um espaço muito bom", justifica. A mudança interferiu diretamente em seu trabalho: hoje, a maior parte das telas utilizadas por ele é comprada sob medida, com aproximadamente 2m x 2m - as maiores dimensões que passam pela porta do elevador do prédio (o apartamento fica no 9º andar).

É uma destas telas que, no início de julho, podia ser vista na entrada do ateliê. Ele contou que estava trabalhando nela havia duas noites, e se disse satisfeito com o resultado obtido até então. "Está com um equilíbrio muito interessante. E fiquei impressionado, porque surgiu um amarelo ali no meio", comenta. A surpresa não é sem motivo: esta é a primeira vez em muitos anos que a cor é utilizada em uma de suas pinturas.

Até completar 30 anos de idade, Radaelli trabalhava com uma grande variedade de tintas, muitas delas de tons vibrantes. "Eram obras quase carnavalescas", relembra. Depois, passou a pintar apenas em preto e branco sem um motivo consciente, e trabalhou dessa maneira por quase duas décadas. Agora, aos 50 anos, ele retoma aos poucos parte de sua antiga palheta de cores. "Não foi nada muito planejado. Para mim é até complicado de entender, mas um dia eu notei que estava faltando um pouco de cor em alguns detalhes, e foi acontecendo", diz. Apesar das variações cromáticas, ele manteve a mesma temática ao longo de todo este período: a figura humana.

Há um personagem recorrente na obra do artista, muito embora ele não tenha o costume de trabalhar com séries. Trata-se de um espectro esbranquiçado, sem contornos definidos, inclinado à frente como se estivesse prestes a cair. Radaelli conta que a inspiração para esta figura veio de um desenho de Iberê Camargo, que viu ainda no início da carreira. "Fui muitas vezes visitar o Iberê no seu ateliê. Eu costumava ir até lá, sentar e ficar olhando ele pintar durante horas, vendo tudo o que ele fazia. Acho que este foi o meu maior aprendizado. Iberê teve uma influência muito grande no meu trabalho", conta.

Tanto quanto em suas pinturas, esta influência pode ser percebida nos desenhos espalhados pelo ateliê. São centenas deles, guardados em caixas, gavetas ou simplesmente atirados sobre o piso. "Não tenho muito cuidado com o que faço. De repente, até deveria ter. Mas eu gosto de sujeira, da sujeira que dá certo. Às vezes desenho e deixo os papéis jogados no chão. Se acabo pisando, aquilo fica como marca, e passa a fazer parte do trabalho", explica.

Assim como as obras, o apartamento também recebe este tipo de marcas. Nas paredes, junto às manchas de tinta, estão coladas fotos dos filhos, recortes de jornal e pedaços de papel com ideias inacabadas. De vez em quando, o artista também rabisca algumas palavras para servirem de inspiração. "Aqui, por exemplo, deixei escrito 'tempestade', que era a sensação que eu queria transmitir em algumas pinturas. Tento fazer isso aparecer na imagem, porque não gosto de colocar nome nas obras - acho que direciona muito a interpretação", justifica.

As alterações no espaço têm como objetivo tornar o ambiente mais aconchegante para o artista, que não vai lá apenas para trabalhar, mas também para ler e ouvir música. Às vezes, acaba ficando para dormir. "Mas isso depende do acordo com a patroa", brinca. A cama, improvisada no quarto ao lado do ateliê, acaba sendo um recurso providencial: dividido, durante a maior parte do dia, entre a família e o restaurante, é geralmente nas últimas horas da noite que Radaelli encontra mais tempo para pintar.

O artista admite não saber que tipo de trabalho estará fazendo daqui a um ano, ou sequer na próxima semana. "Nunca sei o que vou fazer antes de iniciar a tela. Tem muito pintor que desenha o projeto, já sabe antes o que vai fazer. Eu prefiro essa coisa de começar e ver o que acontece. Normalmente, lanço uma figura humana e vou pintando ao redor. Às vezes, a figura até muda de posição, ou aparece uma perna, desaparece a cabeça", exemplifica. Quanto ao futuro, portanto, apenas uma certeza: "É quase uma brincadeira dizer isto, mas eu não sou artista - sou só pintor. Meu prazer verdadeiro é na pintura - é ela que me traz a descoberta, o desafio. E é isso que vou continuar fazendo", conclui.


fonte : Fundação Iberê Camargo em 15/07/2010
Fonte .

Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.