Fulvio Pennacchi (1905-1992)

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Artista Fulvio Pennacchi (1905-1992)
Biografia Pennacchi, Fulvio (1905 - 1992)



Biografia

Fulvio Pennacchi (Villa Collemandina - Garfagnana Toscana, Itália 1905 - São Paulo SP 1992). Pintor, ceramista, desenhista, ilustrador, gravador, professor. Em 1924, muda-se para Lucca e inicia sua formação artística freqüentando o Regio Istituto di Belle Arti (atual Istituto Superiore Artistico A. Passaglia), onde tem aulas com o pintor Pio Semeghini (1878 - 1964). Muda-se para São Paulo em 1929 e dedica-se à diferentes atividades até 1933, quando passa a auxiliar Galileo Emendabili (1898 - 1974) na execução de monumentos funerários. Em 1935, conhece Francisco Rebolo (1902 - 1980), passa a freqüentar seu ateliê e convive com os artistas do Grupo Santa Helena. No ano seguinte, indicado por Emendabili, trabalha como professor de desenho geométrico e artes no Colégio Dante Alighieri. Nessa mesma época integra a Família Artística Paulista - FAP e inicia a produção de painéis em afresco e óleo para residências, igrejas hotéis e outras edificações, destacando-se os afrescos de grandes dimensões para a Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério, executados entre os anos de 1941 e 1948. A partir de 1952, pesquisa técnicas de policromia em cerâmica. Em 1965, inicia um período de recolhimento e mantém-se afastado das exposições e do circuito artístico. Em 1973, reabre seu ateliê e recebe diversas homenagens no Brasil e na Itália. Nesse mesmo ano conhece a ceramista Eunice Pessoa e com ela desenvolve um um grande número de peças, expostas em 1975. Sem nunca ter abandonado as atividades artísticas, volta a figurar em diversas mostras e continua a produzir painéis em afresco. Em 1980, Pietro Maria Bardi (1900 - 1999) publica um livro sobre sua obra. Nove anos depois, é lançado, pela editora Gema Design, o livro Ofício Pennacchi, organizado por Valério Antonio Pennacchi, responsável também pela publicação, em 2002, do livro Fulvio Pennacchi: Pintura Mural, editado pela Metalivros.


Atualizado em 22/03/2006

fonte : itaú cultural
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TEXTOS PARA LER

ORIGENS - A DÉCADA DE 1900

FULVIO PENNACCHI nasceu em 1905, em Pianacci, pequena fração de Villa Collemandina, na GARFAGNANA, província de LUCCA; Toscana; Itália - de uma família de antiga progênie, católica, monárquica e ativamente aderente ao movimento unificador italiano. Faleceu em são Paulo, após longa enfermidade, em 05 de outubro de 1992.

Pertencia ao ramo da FAMÍLIA PENNACCHI conhecido pelo predicado de "Pennacchi dei Capitani", formado durante a vida de Giovanni Domenico (1774-1849) que se acredita ter sido capitão da armada alpina.

Desde meados do século XIX, seus ancestrais tinham o monopólio de comprar, moer e vender trigo para toda a "alta Valle del Serchio", o que lhes dava uma posição proeminente na sociedade local. As benesses oriundas daquele comércio chegaram abruptamente ao fim com a morte prematura de seu pai - Derciso Vittorio (1880-1920) - ficando Fulvio e seus irmãos (Bruno, Nello e Gaetano Giuseppe) e irmã (Olga) sob a guarda de seu tio, o advogado Giuseppe Lemmi de Castiglione di Garfagnana.




A DÉCADA DE 20

Após ter cursado os estudos elementares em Castiglione e os secundários em Pisa, inicia os estudos superiores em pintura na "Real Academia de Arte Augusto Passaglia", de Lucca; aonde, após sua graduação, em julho de 1928, substituiu como professor, o seu mestre e orientador o pintor ANTONIO PIO SEMEGHINI (1878-1964). Em seguida, por cerca de um ano, estudou desenho em Florença aperfeiçoando sua técnica em nanquim.

A arte italiana havia vivido um período de grande renovação nos primeiros decênios dos anos 1900; Pennacchi, por sua vez, havia assimilado os princípios e ensinamentos do RETORNO A ORDEM (1919-1925)" prevalentemente classicista. Inicialmente antipático a Pennacchi, Semeghini se impôs não somente como o já famoso re-leitor do pós-impressionismo, mas sim como um grande parceiro que ao ensinar, partilhava conhecimento, experiência e diligentemente tonificava o aperfeiçoamento do desenho e da técnica de pintar. Apresentou aos seus alunos a fundamentação teórica do "Retorno a Ordem", do "Novecento Milanese" e "Novecento Italiano" e os deixou livres para escolherem seus caminhos...

Quando retornava à sua terra natal, Pennacchi reproduzia suas paisagens servindo-se de uma linguagem naturalista e antiacadêmica, simplesmente observando a natureza "en plein air" com sua luz e cor, tal como fizeram os pintores da "Escola de Barbizon e Fontainebleau" no final do século XIX. A experiência será repetida, anos mais tarde, com seus colegas-pintores do "Grupo do Santa Helena", nos arredores de São Paulo. Executava também muitos desenhos a lápis e a nanquim, retratando seus familiares, amigos, conhecidos além das representações da vida cotidiana do seu mundo rural e urbano.

São também desse período suas primeiras pinturas murais "a tempera", executadas nas residências de Pennacchi Valerio e Giannotti Aladino. Na primeira obra, Pennacchi elaborou dois frisos perimetrais com cerca de 60 cm de altura. O primeiro partia do grande átrio se prolongava até a sala de visitas. Através de figuras diáfanas de cores quase transparentes que dançavam entre guirlandas de hera e pâmpano, Pennacchi corporificou o mais famoso poema de Lourenço - o Magnífico, entitulado BACO E ARIADNE.
Na sala de jantar, um segundo friso de folhas de louro e acanto emoldurava o brasão familiar. Para a sala de armas da casa Giannotti, Pennacchi criou cenas de caça relativas à fauna local além do retrato do então proprietário.

Desiludidos e perseguidos pelo fascismo local, Fulvio Pennacchi e alguns parentes próximos decidem emigrar para o Brasil onde já viviam seus dois irmãos e outros parentes que no final do século XIX haviam comprado terras no Sul de Minas (Monte Sião, Ouro Fino, Jacutinga, Borda da Mata, etc.). Quando de sua chegada, aqueles parentes já eram grandes plantadores de café, empregando como mão de obra aquela "dei disperati imigranti italiani della vanga o del piccone". Durante a década de 1910, Pennacchi Luigi, também ele Pennacchi dei Cannari de Villa Collemandina, recebera o título honorífico de "Coronel" da Guarda Nacional e era juntamente com Júlio Bueno Brandão (1858-1931), líder regional do Partido Republicano Mineiro.
Partiu de Genova em 14 de junho de 1929 chegando ao Brasil, em Santos, em 5 de julho do mesmo ano às 08h00, em plena "Crise do Café", subproduto daquela "quinta-feira negra" nova-iorquina que repercutia em todo o mundo.





A DÉCADA DE 30

Década muito laboriosa, com ativa participação em Salões e Exposições, de premiações e muitos acontecimentos; porém, de parcos resultados financeiros. A "Crise do Café" fez-se sentir em toda a década e as revoluções de 1930, 1932, 1935 e 1937 davam ao país uma atmosfera de desassossego e instabilidade econômico-financeira e política. Como conseqüência fazia-se poucas vendas.

Francesco Piccolo, na época professor de literatura italiana da recém criada USP-SP, dedica a Pennacchi um importante artigo -
DESCOBERTA DE UM PINTOR - após visitar a "Exposição de Pequenos Quadros" feita no Palácio das Arcadas. Juntamente com Sérgio Milliet (da Costa e Silva) compram algumas "das pequenas maravilhas que Pennacchi expôs nas Arcadas...". Segundo Rebolo, "foi uma festa!".

No início dos anos 30, cria com Antello Del Debbio, uma sociedade de comunicação visual - Clamor - produzindo muitos projetos publicitários. Em março, 1932, conclui que "latelier Clamor" não dá resultados práticos. Em maio, 2005, o Instituto Moreira Salles através de seu Superintendente Executivo - Antonio Fernando De Franceschi - apresentou uma exposição inédita e exclusiva dos "Reclames de Fulvio Pennacchi - primórdios da propaganda brasileira" acompanhada por um detalhado catálogo para o qual colaboraram Annateresa Fabris, Silvana Brunelli Zimmermann, J. Roberto Whitaker Penteado, Gabriel Zellmeister além do próprio Antonio De Franceschi.

Inicia a colaboração com o escultor Galileo Emendabili, influenciando sua obra

Uma renda mais constante será conseqüência da compra com Antonio Gioia de um primeiro açougue (Rua Bela Cintra). Em seguida compra a parte do sócio e logo depois, juntamente com seus dois irmãos, cria uma filial (Rua Almeida Torres). Participa ativamente da administração obtendo em pouco tempo resultados satisfatórios, que permitem que ele possa dedicar-se quase que exclusivamente à sua arte.

Conhece Francisco Rebollo Gonsales com o qual divide um atelier no "Palacete Santa Helena". A chegada de outros artistas forma, de maneira espontânea, um grupo que mais tarde será conhecido como GRUPO DO SANTA HELENA.

Revitaliza a técnica da pintura mural - VIDE CRONOLOGIA - primeiro a óleo (1936) e posteriormente afresco (1939), atividade que manterá até o final da década de 1950.




A DÉCADA DE 40

Esta década, por força de suas múltiplas realizações, nos mostra um artista já consolidado na terra em que escolheu para viver, e fiel aos princípios de seu aprendizado (e.g.: Paris Pós-impressionista, Retorno a Ordem, Novecento, etc.), prossegue no encalço de projetos aparentemente tantalizadores. A consecução de tais projetos se deve a um artista de costumes espartanos e espírito aferrado, apesar de ensimesmado e modesto.

Durante o período serão criados o projeto e a execução da IGREJA NOSSA SRA. DA PAZ e os afrescos pertinentes à Igreja e ao Convento. Sem dúvida sua maior realização, em razão da qual Pennacchi já merece ser considerado como um dos grandes artistas atuantes no Brasil. Alguns anos mais tarde Pennacchi PROJETA E CONSTRÓI SUAS DUAS RESIDÊNCIAS e as decora com afrescos, cuidadosamente estudando e projetando móveis, luminárias, acabamentos e toda a sorte de alfaias, formando um conjunto de grande unidade.

Concomitantemente, participa de várias exposições; uma delas na Galeria Itá é sua primeira exposição individual na qual apresentou 70 obras. Produz inúmeros afrescos para as residências das mais importantes famílias paulistas, decora com afrescos o HOTEL TORIBA em Campos do Jordão baseado em temas folclóricos brasileiros; pinta afrescos na Capela do Hospital das Clínicas em São Paulo e na Catedral de Uruguaiana, escreve com maior freqüência POEMAS que abordam o cotidiano, suas lembranças, seus amigos e os temas prediletos de suas pinturas.

Entre outubro.1941 e maio,1944; mantêm "quantiosa e valiosa correspondência com sua futura esposa", ND Filomena Maria dallAste Brandolini Matarazzo, que se havia transferido com sua família para a Argentina (Buenos Aires e Ascochinga - Sierras de Córdoba), nas quais, de sua parte, relata seus projetos, obras e frequentemente envia pequenos guaches delicadamente coloridos. Das 600 cartas trocadas entre os eles, somente 300+ ainda existem e, no momento, estão sendo traduzidas já apresentando elucidações importantes sobre o percurso do artista, a vida artística de São Paulo e a sua própria.

Em 1946 Fulvio Pennacchi casou-se com a N.D. Filomena Maria dallAste Brandolini Matarazzo, na capela particular dos tios Conde Andrea Matarazzo e Amália Cintra Ferreira 1. Frei Emilio Wienk, na época "diretor espiritual" de Filomena, oficiou o enlace. Da união que durou 47 anos, nasceram oito filhos; hoje com inúmera descendência.



NOTA
1 Amália Cintra Ferreira Matarazzo (1887-1958) foi esposa do Conde Andrea Matarazzo e nora do conde Francesco Matarazzo, avó materna do senador Eduardo Suplicy. Fez seus estudos no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, cidade de Itu. Exerceu intensa atividade assistencial, deixando seu nome ligado a beneméritas instituições desta Capital. Foi fundadora e presidente da Liga das Senhoras Católicas, fundadora e diretora do Instituto Santa Amália, presidente da Fundação Loyola e fundadora do Dispensário São José. Colaborou também com centenas de outras obras assistenciais em todo o território brasileiro. Foi agraciada pelo governo italiano com a medalha "Stella della Solidarietá Italiana."




A DÉCADA DE 50

O início da década de 1950 marca, grosso modo, o contato direto dos artistas brasileiros com recém chegados processos de criação. Alexander Calder e Max Bill expõem no MASP e este último recebeu o prêmio de melhor escultura, unanimemente aplaudida, na nossa primeira Bienal (1951). A arte abstrata que fora iniciada por Wassily Kandinsky na década de 1910, finalmente permeara-se entre nós. Os antagonismos surgiram; aqui estão dois exemplos; Mário Pedrosa defendia o movimento abstracionista enquanto que o arquiteto Vilanova Artigas, considerava a Bienal e o abstracionismo como a "expressão da decadência burguesa".

Concomitantemente Samson Flexor (1907-1977) que chegara ao Brasil em 1948, iniciou as atividades do "Atelier Abstração" em São Paulo. Ainda em São Paulo o concretismo recebia o nome de "Grupo Ruptura"; catalisado positivamente pelo porta-voz do grupo, Waldemar Cordeiro (1925-1973). No Rio de Janeiro surgiu um grupo que após a Bienal se transformaria no "Grupo Frente", liderados pelo artista carioca Ivan Serpa (1923-1973), um dos precursores da abstração geométrica no Brasil.
Ouçamos Pennacchi:
"... participei da primeira Bienal com uma composição de figuras em afresco sobre reboque, porém optei por um auto-exílio, por não concordar com o caótico desenvolvimento das artes plásticas nos anos 1950 e resolvi voltar para o meu mundo e continuar a pesquisar e trabalhar. Até 1964 fiquei completamente isolado e nunca fui convidado a participar de qualquer mostra de arte."

Tenaz e obstinado Pennacchi continuou seu caminho. Produziu durante o período afrescos e painéis de grandes dimensões; o último deles, em 1959, numa capela na Igreja de Nª. Sª. Auxiliadora. Fez mais; entre eles: "O balão" para Cândido Cerqueira Leite (3,8 x 7,0 m), "A ceia de Emaús" para a Liga das Senhoras Católicas; hoje Liderança Capitalização (2,9 x 6,4 m); "Cena Italiana" hoje de propriedade de Dudi Guper (1,8 x 4,0 m); decorou ainda a abside da Igreja Matriz de Ribeirão Pires. Vide "Cronologia das pinturas murais e painéis."

Recebeu várias premiações - Vide "Cronologia das premiações", entre elas, a "Pequena Medalha de Ouro do Salão Oficial de Arte Moderna de São Paulo".
Um outro produto magno da época foi a escultura. As argilas e as terras brasileiras sempre interessaram a Pennacchi, e delas surgiram, como resultado de extensas pesquisas, suas esculturas, que quando à sua categoria, enquadram-se nas peças em "terracota", "grés" e outras com "acabamento policromático".
As tais "CERÂMICAS", nome pelas quais aquelas esculturas são comumente conhecidas, foram cozidas em seu próprio forno. Adicionais experiências foram possíveis pelo apoio e amizade de Paulo Rossi Osir e do industrial Cândido Cerqueira Leite (Mauá - SP 1937-1970), que lhe cedia seus fornos - Indústria de Cerâmica Cerqueira Leite S.A. - que atingiam a temperatura de 1.300º.
Sem a utilização do torno, com singular destreza saíram das mãos do artista, imagens, presépios, santos, anjos, adereços (broches, pulseiras e colares), jarros, cinzeiros, composições figurativas e figurarias além de toda a sorte de alfaias.
O maior exemplo da "cerâmica vitrificada" é o azulejo. No final da década de 1940 - lembremo-nos que a casa da "Rua Espanha" foi inaugurada em 1948 - Fulvio e Filomena os compraram, e como eram brancos, pintaram milhares deles os quais foram utilizados no acabamento da cozinha, copa e banheiros da residência da "Rua Espanha".
Os serviços de mesa, que são de faiança branca, também eram comprados, posteriormente decorados pelo casal e cosidos nos dois fornos que estavam instalados no porão da casa que se comunicava com o "atelier" do artista por uma escada.
Um outro mundo, inesperado e inexplorado de um extraordinário criador!




A DÉCADA DE 60

O início dos anos 60 dá continuidade ao retraimento, ainda voluntário, do artista no grande circuito das artes, mas não à sua produção. Conjuntos painéis em madeira industrializada que substituem os afrescos ainda são produzidos. Com 55 anos ca., Pennacchi não tinha mais resistência física para enfrentar grandes alturas, andaimes e reboques; daí a necessidade de pintar, para grandes ambientes, painéis, mesmo que unitariamente grandes. Para a feira de Natal - iniciativa de Emy Bonfim - pintou miniaturas, e algumas outras obras para mostras de moderada recensão.

Porém, em 03.12.1964, por ocasião da exposição na "Casa do Artista Plástico" Pennacchi, que se havia transformado num "pintor de colecionadores" e que não se apresentava em público há muito tempo, exibe com grande sucesso de público e crítica, suas recentes pinturas e; pela primeira e única vez em vida, suas esculturas1. O sucesso, oriundo da criteriosa revisão de valores que o alarido da improvisada crítica vinha fazendo com seus "artistas" prediletos, dá conta ao colecionador e ao publico do que fez Pennacchi durante todo esse tempo em que referveu a bambochada. Vide "Cronologia Crítica".

É desta década (1966 ca.) a pintura de quatro grandes painéis de madeira (2,20 x 1,20 m cada) retratando cenas da vida brasileira. Formam junto com algumas esculturas com acabamento policromático, a coleção "Opus Dei" em Arueira.

Em 1969, por não atender à "solicitação vanguardeira" - é a época da arte mínima, monocromática e conceitual - obras submetidas ao Júri do "I Salão Paulista de Arte Contemporânea" foram recusadas 2. A civilidade e afabilidade do artista não lhe permitiram repetir a conhecida jaculatória de Beethoven, quando informado que algumas de suas obras não mereceram o aplauso da crítica - Ça leur plaira bien, un jour - (NdA: Eles aprenderão a gostar, um dia).



NOTAS
1 NdA: Lembro-me perfeitamente dos grandes grupos de pássaros, três ou quatro "Última Ceia", de sabor e plasticidade incríveis... ao volume da escultura e do contraste que esta provocava quando pendurada na parede se juntavam cores e tonalidades sem fim!"
As cerâmicas da coleção da família Fulvio Pennacchi, foram mostradas publicamente, uma segunda vez, na exposição "Desvendando Pennacchi"; Curadoria: Fábio Porchat; Museu da Fundação Armando Álvares Penteado; São Paulo; 2000.
2 Segundo depoimento de Pennacchi ao autor, tratava-se de um conjunto de 14 quadros sobre as "Obras de Misericórdia".
3. A imagem-ícone da decada é pintura executada na década de 40 com interferência do próprio artista na década de 60 / adição dos personagens.




A DÉCADA DE 70

Enquanto a Europa Central discutia o neo-impressionismo, transvanguarda e arte "povera"; no Brasil (1972) se comemorava o cinqüentenário da "Semana de 1922" e segundo alguns, do "nascimento da arte moderna". Em São Paulo, poucos anos depois (1930 ca.) tomou força um grupo de pintores que de forma espontânea, independente e sem programas pré-estabelecidos se reunia no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé; e que, entre outras afirmações garantiam que nada deviam e nem seguiam o que fora feito em 1922.

Para a maioria dos "santelenistas" aquela "Semana" não era o ponto de partida, mas sim, mais um momento (festivo e barulhento) da longa caminhada já iniciada na atualização da arte em nosso país. Tenho uma certeza: Foi o "Baile da Ilha Fiscal" da endinheirada elite agrária paulista. Segundo Di Cavalcanti, Marinette Prado, sugeriu uma semana de arte nos moldes da "Semaine de Fêtes de Deauville" um balneário da Normandia (França). Paulo Prado, alguns "barões do café" e nomes de peso o organizaram e pagaram a conta. Não o teriam feito depois de 1929! Foi a primeira fase do nosso modernismo, mas não deixou legados duradouros nem entre os artistas e muito menos junto ao público que poderiam ter utilizado a Semana para fins didáticos.

Pennacchi fazia parte do "Grupo do Santa Helena", e, em 1973, comemorando 40 anos de pintura, foi homenageado por P. M. Bardi, com uma RETROSPECTIVA no MASP; na época, o mais importante museu brasileiro. Foi a terceira retrospectiva que o MASP - Paulista realizava (as outras foram de Portinari e Segall) e a primeira de um artista enquanto vivo2.

A "re-descoberta" do artista causou grande comoção; sucesso absoluto de público e crítica. Mostrou o admirável percurso do artista tornando patente a extensão de sua pintura mural, seus esforços e êxito para a revitalização da técnica do afresco entre nós e sua escultura, até então conhecida somente por alguns colecionadores e pelo seu restrito circulo de amigos e conhecidos.
Por ter-se afastado das exposições e da "mídia" por muitos anos e por manter-se fixado no figurativo de origem que com o passar dos anos daria a sua pintura um caráter "primitivo", a Pennacchi caberia esperar pelo reconhecimento como subproduto do frêmito de sua retrospectiva pessoal. Tal retrospectiva continha muita pesquisa original que denunciava as desinformações oriundas das abordagens precárias a respeito de sua obra após a década de 1940.
O catálogo-livro produzido - "Pennacchi; quarenta anos de pintura" - teve prefácio de P. M. Bardi, introdução de Fábio Porchat, ensaio crítico de Valerio Pennacchi e fotografia e "stills" de Rômulo Fialdini.
À Retrospectiva sucederam-se tal numero de exposições e comemorações que a mídia considerou o ano de 1973 como "o ano Pennacchi" (Vide "Cronologia").

A partir de 1973 até seu falecimento, em 1992; portanto em 19 anos, Pennacchi participou de mais eventos, exposições individuais e coletivas, homenagens e recebeu mais honrarias que em todos os 45 anos precedentes.
Foi distinguido pela República brasileira, pela italiana, pelos governos do Estado e do município de São Paulo, pelas cidades de Pianacci, Castiglione di Garfagnana, Lucca e Ribeirão Preto, universidades, escolas e comunidade artística.

Em 1975, após conhecer a ceramista Eunice Pessoa, Pennacchi aceitou a sugestão de trabalharem juntos. O resultado foi uma exposição conjunta de PAINÉIS CERÂMICOS FOLCLÓRICOS, no Clube Atlético Paulistano.


NOTA
O trabalho Natureza Morta originalmente pintado na década de 40, com interferência do artista na década de 70.










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Bibliografia
"22 por 22: A Semana de Arte Moderna vista pelos seus contemporâneos"; Org.: Maria Eugenia Boaventura; EDUSP; São Paulo; 2.000.
"A Arte no Brasil nas Décadas de 1930 - 40: O grupo Santa Helena"; Walter Zanini; Nobel - EDUSP; São Paulo; 1991.
"Pennacchi - Quarenta Anos de Pintura"; Centro de Artes Novo Mundo; São Paulo; 1973.
"De Anita ao Museu"; Paulo Mendes de Almeida; Editora Perspectiva; São Paulo; 1976.
"Mário Zanini e seu tempo"; Alice Brill; Editora Perspectiva; São Paulo; 1984.
"Aldo Bonadei: o percurso de um pintor"; Lisbeth Rebollo Gonçalves; Editora Perspectiva; São Paulo; 1990.
"Pintores e pinturas"; Sergio Milliet; Livraria Martins; São Paulo; 19403





A DÉCADA DE 80

A década de 1980 é também caracterizada pela participação de Pennacchi em inúmeras exposições individuais e coletivas. O ciclo de comemorações do cinqüentenário de sua chegada ao Brasil (1929-1979), se estende pelo inicio dos anos 80 com outras mostras e com o lançamento de um segundo livro, intitulado "Pennacchi" escrito por P. M. Bardi.

O artista toscano por força de sua grande pintura, de seus desenhos sutilíssimos, esculturas inventivas, e "fresquista" único, conquista seu lugar no cenário das artes em nosso país. E continua a produzir com domínio amplo e absoluto do desenho e perfeita harmonização das cores. Fascinado pelo mundo simples dos humildes do Brasil e quase sempre retratando cenas concordantes com aquele mundo, Pennacchi não é um pintor "naïf", pois sua habilidade técnica se faz sempre presente, tanto nas grandes como pequenas composições; mas, como já dissemos, através do anos paulatinamente o endereço de suas obras vinha assumindo um caráter que, a primeira vista, poderia se considerar "primitivo".

Talvez movida pela maturidade e reconhecimento de seu trabalho,
a PRESERVAÇÃO DE SUA OBRA MURAL sempre a cargo do Engº Paulo Sproviero, que havia se iniciado em 1976 (Rua Polônia) 1982 (Rua Cravinhos) continuou em 1984. A Construtora Chap-Chap e a família Emendabili reuniram esforços para salvar algumas paredes das duas casas que seriam destruídas para dar lugar a um novo edifício (Rua Maria Figueiredo).

1985 marca seu octogésimo aniversário e, grosso modo, 60 anos de atividades artísticas, já que os murais a têmpera executados na Garfagnana, sua terra natal, foram feitos no período 1925-1927. Novas mostras individuais... .
"Nesses anos não consegue acompanhar a demanda de obras com sua assinatura" - depoimento de sua filha Giovanna Pennacchi ao autor deste trabalho.

Em 1989 realiza sua última exposição individual em vida, concomitante com o lançamento de um terceiro livro - "Ofício de Pennacchi". No livro, também escrito por Valerio Pennacchi, a obra do artista é apresentada em suas específicas técnicas; Afescos, Pinturas, Desenhos, Cerâmicas e Arquitetura

Mesmo nas suas últimas obras percebe-se um desenho simples e definido, cores claras e alegres criteriosamente balanceadas por um "pintor sabidíssimo" que assim compõe seus temas populares e ingênuos.


NOTA
a imagem-ícone da década é original da década de 50, auto retrato, retrabalhado pelo artista na década de 80.




1990 - 1992

Morre em 05 de outubro aos 86 anos de idade, após longa enfermidade.
Está enterrado no cemitério da Consolação-São Paulo, no jazigo das famílias Conde Attilio Matarazzo e Matarazzo-Pennacchi.

A Folha de São Paulo, através da pena de Luiz Jean Lauand - "Estética da participação" - lhe presta uma justa homenagem. Do mesmo autor, O Estado de São Paulo publica "Pennacchi e a filosofia de Pieper".
Em dezembro, recebe homenagem no Leilão de Natal de Aloísio Cravo-São Paulo.

Pennacchi, intérprete da vida do campo ou da cidade, não peregrinou nas "Barbizon e Fontaineblue tropicais", seja por ilusão de chegar a algum lugar, seja pela necessidade de descobrir algo novo. Aqui veio para viver enquanto viajava, para aprender a conhecer o que via contemplar e dar forma às descobertas propiciadas por sua experiência. A vida-obra de Pennacchi é a experiência da "descoberta do Brasil", absorvida e decodificada sob a ótica do universal e do eterno.

O próprio Pennacchi resume sua vida-obra:
"Eu amo o ser humano, na verdade, eu amo o "divino" que o ser humano contém".

Nossa herança:
Como homem... nos deixou o exemplo de vida em constante construção, pautada por coragem e caráter sem recuos, trabalho, perseverança na busca e conquista de seus ideais, amor a Deus e a seu próximo.

Como artista... nos transmitiu uma obra em que estavam presentes os arquétipos da sua tradição toscana, a rigorosa e séria releitura da tradição acadêmica e dos anos de sua formação, aliadas às profundas reflexões sobre a Criação!



fonte : http://www.fulviopennacchi.com
Fonte Itaú Cultural/cda