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 Arte Urbana Graffiti - O graffiti na cidade de São Paulo.
 


O graffiti na cidade de São Paulo e sua vertente no Brasil: estéticas e estilos




Publicação do Instituto de Psicologia da USP - LABI/USP
Apoio: Lei de incentivo a cultura do Ministério da Cultura
Patrocínio cultural: Banco Credibel

Páginas na Internet:
www.ip.usp.br/public/livros/graffiti.htm
www.imaginario.com.br

Este livro reúne textos de profissionais de diferentes áreas, entrevistas, relatos de experiências e apresentação de trabalhos de 60 artistas grafiteiros de representatividade no cenário nacional. Relata a história do graffiti desde seu início, em 1980, até os dias atuais. Sérgio Poato, editor e autor, em parceria com Maria de Lourdes Beldi de Alcântara, do Laboratório do Imaginário e Memória do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo - LABI/USP publicam esta obra, parte integrante da coleção "Imaginário", como forma de propagar e difundir o conhecimento em relação à diversidade cultural brasileira, junto ao público em geral. Trata-se de um importante registro entre o graffiti e o movimento hip hop em nossa cultura.
Segundo Charbelly Estrella - uma das autoras do livro e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) -, a singularidade dessa produção que vem transformando São Paulo na cidade mais grafitada do mundo, está no fato de que o graffiti conjuga um tempo diferente de produção. Esse tempo diferente é a metáfora da crítica à indiferença promovida pela "arquitetura-shoppingcenter". Essa operação só é possível pelo fato de que o graffiti convoca em sua produção a preocupação com o lado estético, poético. É nesse cenário árido e, ao mesmo tempo, profícuo que o graffiti vem apostando em novas técnicas, novas modalidades e uma experimentação fervorosa de seus espaços, cujos acessos são restritos às contra-racionalidades cotidianas. É nesse cenário, que promove o encontro entre gigantes e "banais".
Esta é a batalha cotidiana do graffiti - uma espécie de cruzada visual para lembrar a cidade e sua humanidade. No início, o graffiti era a diversão que desafiava a ordem pública. Grafitar era realizar a irreverência juvenil no lazer despojado, em pequenas desordens visuais, na experimentação do risco. Estava intimamente conectada à reação agressiva que tomou os centros urbanos brasileiros, no fim da década de 70 e início da década seguinte do século XX - São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre - a cruzada Punk. Apropriar-se da cidade, dos prédios públicos, promover a desordem. Essa característica ainda está fortemente presente na pichação - o risco, arriscar-se, riscar. Especialmente se considerarmos a paisagem urbana como signo do abandono.
Pode-se apostar numa relação íntima entre o graffiti e uma experiência de risco na cidade. O risco da escalada nos prédios, o risco da lei e da repressão policial e o risco de não durar. O graffiti carrega a insígnia do risco porque desafia o "establishment" visual e formal da cidade. A população de pedintes, mendigos, moradores de rua, que são radicalmente marginais, enuncia os perigos do sistema social urbano ao mesmo tempo em que constituem seu efeito mais óbvio e cruel - a exclusão social que a geografia capitalista do espaço produz.
Entretanto, os desenhos foram aos poucos abandonando a ideologia juvenil e estruturando-se sob uma preocupação essencialmente poética. Grafitar deixa de ser uma ação rebelde e passa a ser um ato poético - produtor de uma visualidade. Esta é a própria condição visual da imagens do graffiti, mas que, diferentemente da publicidade, insistem na diferença, baseiam-se na singularidade de seus autores.
Se antes em sua raiz comum com a pichação o graffiti era, sobretudo, signo de rebeldia, anarquia, irreverência e pouca preocupação com o fato estético, agora, o que acontece é a submissão dessa atitude de irreverência juvenil a uma preocupação estética e subjetiva. Como? Essa é a resposta que este ensaio busca discutir através da obra dos artistas Gustavo e Otávio Pandolfo - Os Gêmeos, no livro sob o título: "A visualidade de São Paulo e o vocabulário popular do graffiti - a poética dos Gêmeos".
Em outro momento, Sérgio Poato aponta para o universo da pichação em entrevista realizada com uma gangue de pichadores cujo vício de pichar e os riscos, para eles, tornam-se uma maneira de destaque em uma sociedade desigual.
Completando o tema pichação, Iracema Jandira Oliveira da Silva professora e doutoranda do Núcleo de Psicanálise da PUC-SP, em seu artigo intitulado "Graffiti - criptografias do desejo", relata sua experiência em consultório com jovens infratores, ao escutar adolescentes que picham muros e monumentos públicos das cidades. Segundo Iracema, esses adolescentes são oriundos daquilo que se costuma chamar de cultura da pobreza: baixo nível de qualidade de vida, dificuldade de acesso aos principais benefícios da técnica e da tecnologia trazidos pela modernidade; faltam-lhes oportunidades de escolarização e de profissionalização, vivem em péssimas condições, mas freqüentam festas com música high-tech, anseiam navegar na Internet, ter um celular, enfim, conhecem os benefícios da modernidade, sofrem os apelos dela, mas esta é uma realidade que, apesar de estar muito próxima dos seus sentidos, está muito distante de suas mãos - vivem a Pós-modernidade sem nunca ter vivido a Modernidade. Esses adolescentes sentem na pele as marcas da exclusão. Seus desejos habitam as estrelas, mas seus pés pisam esgotos a céu aberto. Em última instância, grafitar serve-lhes para satisfazer seus desejos narcisistas, cuja essência é ser único, diferente, superior aos demais, a fim de esconder um Eu empobrecido e desqualificado, esperando receber em troca, de quem passa, um olhar que assim o desminta.
No capítulo intitulado "graffiti ocupando seus primeiros espaços", Celso Gitahy apresenta os primeiros artistas e rebeldes que escreveram palavras de ordem nos anos 60, 70 e meados dos anos 80, em uma época em que havia uma relação diferente com o tempo do ato de pintar que se tem hoje, devido ao período sombrio de nossa história marcada pela ditadura e repressão cultural e intelectual, em que se tentou impedir as manifestações artísticas e ideológicas de toda uma geração. Os artistas apresentados nesse capítulo são: Alex Vallauri, Carlos Matuck, Waldemar Zaidler, Hudnilson Jr., Vado do Cachimbo, Ozéas Duarte, Julio Barreto, Grupo Tupinãodá, Ivan Viana, Arthur Lara, Eduardo Castro, Jorge Tavares, Job Leocádio, Numa Ramos, Cláudio Donato, Carmen Akemi, Márcia Chicaoka, Neto, Mona, Juneca, Kaleb e Alexandre Orion. Este último, em entrevista, nos explica a relação da fotografia com a pintura, característica de seu trabalho artístico.
O lugar do Hip Hop em São Paulo e os desenhos grafitados como marcas das periferias é o tema do artigo escrito por Guilherme Scandiucci, psicólogo, mestre pelo Instituto de Psicologia da USP. A cultura Hip Hop que teve início nos guetos nova-iorquinos, na década de 70, surge em São Paulo no fim dos anos 80. Ficaram bem conhecidos os encontros de jovens, sobretudo da periferia, na estação São Bento do metrô e na Praça Roosevelt, região central da cidade. O Hip Hop apresenta-se, politicamente, como sistema orientador por meio do qual os jovens adquirem "autoconhecimento" em relação ao processo social e promovem intervenções práticas no plano mais imediato. O Rap surge como o principal registro do "apartheid" social. Inspirando-se numa produção cultural norte-americana, os "manos" de São Paulo fizeram seu próprio Hip Hop falando de seus cotidianos e problemas - às vezes semelhantes aos dos negros dos EUA. Eles começam a se ver como parte de uma história comum marcada por exclusões e conflitos que aproximam os negro-descendentes de diferentes contextos geográficos da diáspora africana. Puderam, então, elaborar a crítica à chamada democracia racial no Brasil. Nesse cenário, desenhos grafitados começaram a preencher muros e tablados. Esse colorido de imagens vivas - muitas vezes de dor e protesto - dá uma outra roupagem à alma periférica. Há diversas almas para o corpo dessa metrópole, assim como há diversas periferias com expressões particulares. Almas que também vieram e vêm com os trabalhos visuais impressos pelos grafiteiros.
No capítulo "O graffii e a dança de rua", um dos maiores breakers do movimento, Marcelinho Back Spin, em entrevista a Sérgio Poato, comenta sobre a forma como o Hip Hop se consolidou como uma importante linguagem de inclusão, transformação e mobilidade social e que o rap, o graffiti e o break são alternativas contra a marginalidade, sobretudo entre os jovens das favelas. Também comenta sobre as características e estilos da dança, entre outros.
Os artistas grafiteiros Tinho, Binho, Speto e Vitché são de uma geração influenciada pelo movimento Hip Hip, em São Paulo, em meados da década de 80. Hoje, eles fazem parte do panorama mundial do graffiti, desenvolveram seus próprios estilos e linguagens, assim como continuam a exercer forte influência na atual geração de artistas do graffiti. Tinho no capítulo "Artistas da geração Hip Hop - diferentes estilos e linguagens" nos conta parte dessa história, por exemplo: origens artísticas e pessoas, o primeiro graffiti mural - a arte do 'freestyle', a técnica, a motivação, os trabalhos especiais, influência na nova geração de grafiteiros, sobre conceitos de bomb e pichação, novas linguagens urbanas - stickers, lambe-lambe, animações, entre outros.
Binho Ribeiro apresenta parte de seus trabalhos e nos conta um pouco sobre a expressão do graffiti no Brasil que, em sua opinião, é a maior manifestação de arte que já existiu no mundo e o Hip Hop como cultura de massa passa a ser um grande aliado político, publicitário e cultural.
Em outro momento, o artista Bonga descreve suas experiências como grafiteiro e de que forma a cultura Hip Hop marcou seu estilo de pintura.
Outro artista de estilo completamente diferente é abordado no capítulo "Subterrâneos urbanos - a visualidade visceral e delicada do graffiti de Zezão", apresentado nesse livro por belíssimas imagens e texto impecável de Charbelly Estrella. Quando Zezão desce para sua "galeria subterrânea", ele realiza um encontro visceral ao mesmo tempo em que procura ali um lugar mais humano. Humano porque o esgoto iguala a cidade. Não há melhor nem pior. É só esgoto. Essa redução cruel do lugar faz de sua operação artística uma potente metáfora para falar do lugar onde a cidade inevitavelmente deságua: nas galerias de esgoto. A ação do artista nos subterrâneos é a potência máxima de uma operação produzida nos muros da cidade. Nossa aposta é a de que o graffiti cria relevos visuais, constrói territórios artísticos, invade superfícies esquecidas, superfícies essas abandonadas pelo olhar dos homens que habitam e transitam pela cidade, que o graffiti é capaz de transmutar para uma nova visualidade. Os desenhos de Zezão chamam atenção pela luminosidade, pela fluidez, pela delicadeza das curvas. É como se o artista reinventasse aquele espaço e como se desse uma chance à cidade de ser outra coisa.
A variedade de estilos é marcante. O grafiteiro Does, da cidade de Santo André, em São Paulo, iniciou em 89 utilizando-se da técnica do stencil art. Atualmente, mistura técnicas tribais indígenas, caligrafias árabes, arquitetura gótica e etc. Em entrevista para este livro, realizada por Binho Ribeiro, além dos belos trabalhos apresentados, Does fala sobre o significado de Crew, respeito na cultura graffiti, sobre o que é arte, toy, atropelo, guerra de estilos (style wars), old school, a cena do graffiti no Brasil e no mundo entre outros.
O artista Ciro, é citado no artigo "Da transgressão perseguida à arte assentida", escrito por Rolf Schunemann. Ciro, com seu grafitti, procura mesclar símbolos e grafias diversas, mas a sua maior inspiração está nos traços e signos dos povos originários das Américas. Seus signos muito particulares misturam a arte milenar e tradicional com expressões da vida contemporânea. Sua arte remete para situações da vida cotidiana e para objetos dos mais diversos. Suas molduras realçam o que antes parecia invisível ou óbvio. O grafitti resgata cidadania. De expressão estética perseguida e mal-falada torna-se arte assentida e valorizada. O graffiti, por sua originalidade e imensa criatividade, deixa as cidades menos tristes e monótonas.
O multimídia e ativista cultural Rui Amaral, um dos expoentes do graffiti brasileiro e que assina um painel de mil metros quadrados na Avenida Paulista, tombada pelo patrimônio histórico do município, apresenta seus principais projetos de intervenções urbanas e de inclusão social.
O coletivo lambdalambs formado por Jey, Guid, Boleta, Crespo, César Profeta, Vermelho Queimado, Zeila, Berlim, Bquick, Pato e Tidi, assinam um capítulo sobre Street Art que, segundo eles, a colagem, apontada como "intervenção urbana" pelos críticos brasileiros de arte, é despojada de compromissos com qualquer estilo ou ideologia. Trata-se de uma arte livre que não tem como meta prioritária marcar presença em museus ou galerias. Seu lugar é nas ruas. A arte ilegal de rua não é mais novidade em nenhuma grande cidade do mundo. Entre as formas de expressão artística mais populares, destacam-se (pela mobilidade e fácil aplicação) os stickers e pôsteres. Essa é uma prática surgida há pouco, mas de pronto impacto em diversas metrópoles em todos os continentes. Às vezes como complemento ao grafitti ou, de maneira insistente, vem "poluindo" ou atribuindo uma mensagem ao "mobiliário" urbano, como lixeiras, postes, cabines telefônicas e semáforos. Para o artista Shn, basta a intenção do artista e a do espectador para qualificar um objeto como arte e não arte. Práticas artísticas podem contribuir para a compreensão de alterações que ocorrem no urbano e integrar a arte ao cotidiano.
Outro texto que traz relatos de experiência é o artigo intitulado "Do humor à metáfora: a trajetória do artista Patológico" (André Monteiro), em que o artista procura mostrar um pouco sobre o processo de criação, conceito e uso de cores.
O artista Mauro é um jovem da periferia da zona sul da capital paulistana que apresenta um trabalho diferenciado. Arte-educador do bairro do Grajaú, Mauro realiza oficinas de pinturas para crianças e adolescentes que nunca tiveram contato com a arte, proporcionando a elas um desenvolvimento artístico e social.
Derf, autodidata, tem seu estilo marcado pela múltipla habilidade de criar com base nos estilos de letras e personagens. Sua dedicação e aplicação dentro da cultura do graffiti já lhe rendeu bons resultados, como o prêmio Hutuz de Hip Hop, na categoria destaque do graffiti, em 2005.
Bart e Ginho, em entrevista, mostram a força do graffiti no interior e o graffiti como meio de expressão jovem. Outros artistas apresentam textos e trabalhos, podemos citar: Jey, Boleta, Highraff, Kboco, Chivitz, Alexandre Anjo, Graphis, Truff, Tota, Presto, Schock, Irmãos Monjon, Feik, Falge, Foco, Celo, Felipe (Ephi), Naipe, Bozer, Moai, Ricardo Reis, Akeni, Waleska, Adam Neate, Guid, Jana Joana.
A vertente do graffiti no Brasil é representada pelos grupos "Nação" e "Fleshbeck" do Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte pelos artistas Dalata, Hyper e Figo. Em Ceilândia, DF, por Snupi.
O livro inclui também o dicionário de termos técnicos do graffiti, os trens e as produções (murais).


Ficha Técnica:
Sérgio Poato (EDITOR) Maria de Lourdes Beldi de Alcântara (CO-EDITORA)

AUTORES/COLABORADORES
Sérgio Poato
Binho Ribeiro
Celso Gitahy
Charbelly Estrella
Guilherme Scandiucci
Iracema Jandira Oliveira da Silva
Rolf Schünemann, Tinho

DADOS TÉCNICOS:
Formato 20 x 22 cm.
Papel couchê 150g.
208 páginas.
500 imagens.




 
Fonte : imaginario - 21/03/2007

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