Título Artista nascido em Ribeirão vive de sua obra na Europa
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Nelson Cardoso fala sobre seus trabalhos e a vida que leva na cidade de Sintra, em Portugal; ele nunca expôs em sua cidade natal.

- Portugal  - A primeira impressão que o artista plástico ribeirão-pretano Nelson Cardoso transmite, ao receber em sua casa, em Sintra (Portugal), é a de uma pessoa simples. O cabelo cacheado pouco arrumado, a camisa e a calça surradas, combinadas aos chinelos sugerem desleixo, mas bastam alguns minutos de conversa para que a impressão transforme-se na de uma pessoa tranquila e despreocupada.

Nada em sua casa, que divide com dois cachorros - criados por ele como se fossem da família -, denota desleixo, mas uma simbiose com a arte. A sala e os quartos acomodam bonecos, quadros e máscaras de antigas exposições, enquanto a varanda é rica em esculturas em pedras. Restos de materiais e obras iniciadas se acumulam onde houver espaço.
Ali diz passar noites em claro, trabalhando em suas obras. Trabalha quando quer, à mercê da inspiração. Então, depois do meio-dia, levanta-se e espera o almoço ficar pronto tomando vinho tinto e fumando um cigarro de palha, ao som de música brasileira.

Assim Cardoso leva seus dias desde que instalou-se em Portugal, aos 21 anos - nasceu em Ribeirão Preto em 1958. Era para ser uma viagem de apenas três meses, mas resultou em uma formação de três anos em escultura pelo AR.CO, Centro de Arte e Comunicação Visual de Lisboa. Desde então, fez exposições individuais e coletivas por galerias de Portugal, Alemanha e França, participou de simpósios na Europa e, em 1988, representou Portugal no Japão, no simpósio "Iwate-Machi Stone Sculpture Symposium".

Em abril de 2009 expôs a obra Mega-Pólis, feita inteiramente de material reciclado e inspirada no universo noturno das grandes cidades, na galeria Antiks Design, de Lisboa - em maio do mesmo ano ela foi exibida em galeria na Alemanha.

Artista é eclético no uso de materiais

Nelson Cardoso é eclético na utilização de materiais em suas obras. Para ele, cada material tem um sentimento diferente e, então, deve ser tratado e trabalhado de acordo. "A vida muda e as minhas inspirações mudam também", explica.

Em pedra, ele esculpe desde anjos e bailarinas seminus a cavaquinho e vasos de flor. Com cartão e papelão reciclados, monta cenas metropolitanas que exprimem crítica social: "Se você andar em São Paulo vai encontrar muita figura deitada na rua e policial fazendo ronda. Por isso gosto de ir para o Brasil. Eu tenho mais ideias", confessa, com certa nostalgia.

Já seus quadros, que exibem um pouco mais de humor e nudismo, são montados com material reciclável e, às vezes, madeira, também usada na elaboração de máscaras.

Os trabalhos em madeira e cartões reciclados são montagens que desafiam mais sua criatividade: "O reciclado me dá mais liberdade: é tudo peça que eu encontro e vou montando como num quebra-cabeças"

Entre um gole de vinho e uma lenta tragada no cigarro de palha, compara a criação dos seus trabalhos à de desenhos feitos a lápis em papel: "A gente vai apagando com a borracha até formar algo de que a gente realmente goste", conclui.

Só os conceituados

Cardoso só nunca expôs em sua cidade natal, embore visite sempre o Brasil - algumas de suas obras já foram expostas em galerias paulistanas. Lembra-se de ter abordado a organização do Marp (Museu de Arte de Ribeirão Preto), em uma de suas vindas à cidade, há pouco mais de cinco anos, para informar-se sobre o procedimento necessário para exibir suas obras no local. "Eu estava de calça e chinelo, como estou agora. Eles me olharam dos pés a cabeça dizendo que apenas `artistas conceituados` entravam ali", conta.

Algumas das obras do artistas vieram parar em casas no Brasil. Em março, o dentista Antônio Russo recebeu, sob encomenda, um trabalho em pedra intitulado "A puberdade". "Ele tem uma sensibilidade incrível e uma inteligência privilegiada. É capaz de trabalhar com madeira, pedra e cartão e fazer coisas incríveis. Ele vive de arte, respira arte e tem arte em cada célula do corpo", descreve Russo.

Sobre voltar ao Brasil e exibir seu talento em Ribeirão Preto, o artista oscila entre a saudade e o orgulho: "Quero ser convidado para fazer uma exposição. Gosto que as pessoas gostem do meu trabalho e quero trabalhar com quem goste do que eu faço".

 

Fonte: Jornal da Cidade

Data 26/05/2012