- São Paulo - Vencedor do Leão de Ouro da Bienal de Veneza de 1999, do Praemium Imperiale (equivalente a um Nobel do mundo artístico) de 2012 e autor dos aclamados espetáculos pirotécnicos das cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas de Pequim, em 2008, o artista chinês Cai Guo-Qiang (pronuncia-se Tsai Guo Chang) inaugurou em São Paulo, uma mostra dedicada exclusivamente ao seu trabalho inovador. Vista por mais de 300 mil pessoas em sua passagem por Brasília, a exposição Da Vincis do Povo se divide entre o Centro Cultural Banco do Brasil e o Prédio Histórico dos Correios, com 14 instalações de grande porte, que incluem desenhos feitos de pólvora e invenções ambiciosas criadas por camponeses do país asiático, além de uma extensão ao ar livre nas imediações das duas sedes culturais. Marcello Dantas, um dos mais ativos e respeitados fomentadores de arte contemporânea no Brasil nos últimos anos, assina a curadoria da mostra gratuita, que se encerra na capital paulista no dia 23 de junho, antes de seguir para o Rio de Janeiro (21 de julho a 20 de setembro), onde faz a sua última escala.
A principal novidade da exposição em São Paulo fica por conta das instalações expostas do lado de fora do CCBB e do Prédio Histórico dos Correios. Os pedestres da Rua Álvares Penteado e da Rua da Quitanda se defrontarão com dezenas de aviões, helicópteros, submarinos e objetos surrealistas não identificados, suspensos do alto dos prédios por cabos de aço, além de robôs com os quais o público poderá interagir.
Da Vincis do Povo reforça a magnitude da obra do artista. Apesar de ser mais conhecido pelos trabalhos com pólvora e artifícios pirotécnicos, Cai aponta para uma nova direção ao apresentar as histórias de camponeses de todas as partes da China. Nesta múltipla atividade de colecionador e autor, o artista dialoga com o seu fascínio pelo risco, fracasso e experimentação. Mais de 60 engenhocas representam o imaginário onírico destes inventores, algumas das quais desafiam os princípios básicos da engenharia e regulamentações governamentais. A exposição explora não apenas a estética artesanal das criações destes camponeses, mas também suas implicações sociais, políticas e culturais.
"A mostra evoca o desejo inato das pessoas de buscarem o prazer a partir do ato humano da criação. Ela combina o charme do artesanal com a coragem de mostrar a importância das circunstâncias de um indivíduo. Em suma, representa a nossa curiosidade, eterna ingenuidade e nossos sonhos de liberdade", explica o artista.
Os dois motes da mostra ("Nunca aprendeu a pousar" e "O que é importante não é se você pode voar") simbolizam o entusiasmo destes inventores, bem como a coragem e o romantismo com que perseguem os seus sonhos. Inaugurada com enorme impacto no Rockbund Art Museum, em Xangai, em 2010, a mostra encoraja o público a refletir sobre a contribuição destes "Leonardo Da Vinci" à rápida modernização de seu país de origem e, também, os seus sacrifícios vitais. Ao destacar a criatividade individual de cada um deles para além da motivação coletiva e política, a exposição demonstra a perseverança da nação na busca da democracia e da igualdade social.
"Pode-se dizer que sou um contador de histórias, onde a arte contemporânea é a minha linguagem e os camponeses e suas criações são os protagonistas e tema principal desta narrativa", analisa Cai Guo-Qiang.
A versão brasileira da mostra adapta-se ao contexto cultural e arquitetônico de cada uma das três capitais que a sediam. Em Brasília, Da Vincis do Povo harmonizou-se alegremente com a paisagem natural do local, enquanto que em São Paulo o artista convida o público para um encontro inesperado com a arte a céu aberto.
As galerias dentro do CCBB - cujo espaço expositivo foi ampliado e inteiramente reformado para comemorar os 12 anos da instituição - oferecem um espaço tranquilo para a introspecção silenciosa, em contraste com o clamor das ruas paulistanas. Na rotunda do CCBB, os espectadores serão recebidos pela enorme tela Birds and Flowers of Brazil, de 18m de altura por 4m de largura, concebida especialmente para a etapa paulista da mostra. O desenho de pólvora se estende verticalmente por todo o átrio, criando uma experiência visual similar ao do desenrolar de um pergaminho clássico chinês.
Além dos robôs que darão as boas-vindas aos visitantes na entrada do CCBB, uma série de protótipos funcionais, feitos à mão pelo inventor chinês Wu Yulu, serão distribuídos por diversas salas do edifício. Dentro da série de autômatos que se engajam em atividades performáticas, destaca-se a irreverente série que simula grandes artistas contemporâneos, como Jackson Pollock, Damien Hirst, Yves Klein e Bruce Nauman. As obras desenvolvidas pelos robôs - programados para pintar e desempenhar outras ações artísticas - serão colocadas à venda durante a exposição.
O CCBB abrigará ainda uma instalação multimídia formada por 40 pipas de bambu e seda. Presas ao chão por hastes, os objetos ganham vida e cor através de projeções de vídeo - em homenagem a cada um dos inventores representados na mostra - ao passo que são soprados por pequenos ventiladores.
"Com a abertura da exposição, o CCBB inicia as comemorações dos 12 anos de atuação em São Paulo. Ao comparecer à abertura, o público vai poder participar desse momento e conferir, em primeira mão, além do trabalho desse importante artista contemporâneo, as melhorias nas instalações físicas das salas expositivas e do prédio como um todo", declara Marcos Mantoan, diretor do CCBB São Paulo.
A extensão da mostra no Prédio Histórico dos Correios, por sua vez, apresenta a obra Carnival Rehearsal, outra ilustração de grandes proporções feita com pólvora, inspirada na visita do artista ao Brasil em 2012, quando testemunhou ensaios de escolas de samba no Rio de Janeiro. A composição incorpora invenções dos camponeses - tais como máquinas voadoras e submarinos - ao contexto festivo do carnaval.
A obra Complex, um simulacro de um porta-aviões, de 20 metros de comprimento criado pelo inventor Tao Xiangli, repousará no foyer do edifício, enquanto outras salas trazem uma retrospectiva em vídeo dos projetos de explosão realizados pelo artista em diversos lugares do mundo nos últimos 20 anos, incluindo as queimas de fogos das Olimpíadas de Pequim, em 2008. Com apelo de massa sem precedentes, as cerimônias de abertura e encerramento dos jogos alcançaram audiência de mais de um terço da população mundial.
Nas palavras do curador Marcello Dantas, "Cai Guo-Qiang é um escultor de cenários. Ele torna visível o inimaginável, evoca memórias do não vivido, traz os extraterrestres à Terra, mas não os ensina a pousar. Seu lugar no mundo da arte contemporânea ocupa hoje uma categoria que é só dele. Sua prática conseguiu fundir e confundir as fronteiras entre o espetáculo, a escultura e a instalação. A obra de Cai é a ponte entre mundos reais e imaginados. Estar nessa ponte é estar no equilíbrio entre esses mundos".
O bem-sucedido Programa Educativo do CCBB, com ações voltadas para famílias, grupos escolares e para o público espontâneo interessado, promoverá durante todo o período da exposição um espaço interativo, onde crianças serão estimuladas a desenvolverem capacidades criativas. No workshop "Ufocina", os pequenos "Da Vincis" produzirão seus próprios robôs, aviões, submarinos e discos-voadores a partir de objetos do dia a dia.
As obras formam a instalação "Crianças Da Vinci", que junta no CCBB e no Prédio Histórico dos Correios as 600 invenções já concebidas durante a etapa brasiliense com as recém-criadas pelos infantes na passagem da mostra por São Paulo.
SERVIÇO - PRÉDIO HISTÓRICO DOS CORREIOS:
Exposição: Cai Guo-Qiang: Da Vincis do Povo
Até 23 de junho de 2013.
Segunda a sexta - 9h às 18h / sábado, domingo e feriados - 9h às 17h
Entrada gratuita
Fonte: Arteum